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Segundo o Diário Correio da Manhã de 30 de Abril de 2006

Barreiro Cidade do Cinema

cada vez mais possível

Carlos de Mattos
     
 
Poderá ser algo muito bom a nível de emprego para a zona do Barreiro, porque calculo que só à cabeça implique cinco mil postos de trabalho directos
 
Carlos de Mattos

Nasceu em Angola, passou por Moçambique, viveu a adolescência em Portugal, fez-se adulto nos Estados Unidos. Aos 52 anos, Carlos de Mattos é um homem de negócios bem sucedido que está cansado de esperar pela aprovação da ‘Cidade do Cinema’.
  O projecto inclui nove estúdios, muita tecnologia, espaços de lazer e uma vertente empresarial inovadora a nível europeu, com emprego para cinco mil pessoas. Já esteve para ser implementado em três locais, mas há mais de uma década que autarquias e Estado colocam a ideia na gaveta.
 O filho de alentejanos que ganhou dois Óscares, privou com Steven Spielberg, Bill Clinton e George W. Bush não quer perder mais tempo com a ideia. E deixa a mensagem: “É agora ou nunca.”

- Como é que um português de 18 anos chega aos Estados Unidos e se torna nome grande do cinema?

- A história tem início aqui em Portugal. Estava para entrar para Económicas num ano muito confuso em termos de ensino superior, com a faculdade fechada e um processo académico/político complicado, quando soube que havia uma bolsa de estudo na Embaixada dos Estados Unidos. Para não parar um ano decidi concorrer, fui escolhido e entrei no San Fernando Valley State College. Naquela altura deram-me um visto de estudante, não podia trabalhar e, na tentativa de contornar a situação, juntei-me a dois sócios para fundarmos uma companhia chamada Matthew Studio. Começámos a fabricar tripés numa garagem, tinha então 19 anos.

- Levara a ideia daqui, ou surgiu tudo por acaso?

- Sempre gostei de filmes, mas a empresa de tripés acabou por funcionar como a entrada mais fácil para essa indústria, porque não havia até então um modelo ‘standard’. Em 1980 conseguimos implementá-lo, através da aprovação do Congresso norte-americano. A partir daí não parámos de crescer.

- Então, o negócio não resultou de uma paixão de infância?

- Não. Cresci no cinema como poderia ter crescido noutra área. Sempre fui muito terra a terra, nunca tive aquela mania de que o facto de me dar com realizadores e actores conhecidos fazia de mim um eleito. O cinema é um produto como outro qualquer, deve ser encarado como tal, porque se metermos na cabeça a ideia de que é um meio especial perdemos o foco.

- É verdade que ganhou o primeiro Óscar quase por acaso?

- Foi atribuído em 1983, numa altura em que não estava nada à espera porque ainda não era um nome consagrado no meio, nem tinha ainda grande experiência naquelas andanças. Foi dado na categoria de ‘Avanço Técnico’, por causa de uma grua utilizada em ‘ET - O Extraterrestre’.

- E o segundo?

- Surgiu seis anos mais tarde, graças a uma câmara de controlo remoto usada pelo Robert Redford no ‘África Minha’ e no ‘A River Runs Through It’, entretanto copiada e usada em muitos outros filmes.

- Foi tudo um mar de rosas?

- Durante uns bons anos, sim. Chegámos a fazer 100 milhões de dólares em vendas, tivemos 460 empregados, 14 escritórios em todo o país. E marcámos presença na Bolsa de Nova Iorque. Mas a partir de determinado momento tivemos alguns problemas financeiros, em especial na área da produção vídeo, que obrigava a grandes investimentos. Acabámos por vender divisões da empresa. Mais tarde comprei à Bolsa as acções de três companhias: a Hollywood Rentals, a Olesen, e a ISS. Tive-as durante quatro anos e em 2004 decidi vendê-las. Fiz bom dinheiro e cheguei a pensar na reforma.

- Tem 52 anos. Ia parar tão novo?

- Não, mas também já não estava capaz de arriscar como quando tinha 20 ou 30 anos. Desenvolver tecnologias para cinema sai caro e inclui muitas incertezas em termos de lucro, porque em dez invenções só uma acaba por se tornar rentável e eficaz. As outras são para deitar fora.

- O que é que tinha em mente?

- Abrir com o meu filho Marcos uma empresa de investimentos em propriedades, algo ligado ao imobiliário.

- A ideia abortou porquê?

- Conheci o Matthew Crouch, filho do dono da TBN, uma das maiores estações de televisão do Mundo. Ele queria ir para a Bolsa, eu ajudei-o e tornei-me presidente da Gener8Xion Entertainment, como segundo maior accionista. Começámos a desenvolver equipamento aplicável a espectáculos em igrejas e santuários evangelistas. Juntou-se o útil ao agradável porque eles usam muita música e precisam de luzes, as mesmas que vendemos a estúdios como a Paramount ou a Warner Brothers. Pelo meio começámos a produzir para o grande ecrã. Fizemos cinco filmes, sempre direccionados à família, ou seja, sem pornografia nem palavrões que insultem o espectador. Na América esse mercado tem mais ou menos 29 milhões de pessoas, com tendência para aumentar porque há muita gente farta da violência gratuita.

- Quando é que deixou de ser ‘estrangeiro’ nos Estados Unidos?

- Em 1976, data em que casei com a Elena, que ainda hoje é minha mulher. Já tinha um filho nessa altura, o Marcos, hoje com 29 anos. A família cresceu e tenho mais dois, o Matthew, que vai fazer 25, e o Daniel, de 18.

- Algum seguiu o caminho do pai?

- O Marcos, que é meu sócio e vice-presidente da empresa. Quando venho a Portugal é ele quem assume o leme daquele barco.

- Vem cá mais vezes em negócios ou em lazer?

- Infelizmente em negócios, que também não têm corrido muito bem por causa da aventura da construção de uma ‘Cidade do Cinema’.

- O projecto vai para a frente?

- Não consigo responder. É uma pena porque há muitos anos tento implementá-lo em Portugal e até agora tem andado tudo com avanços e recuos. A ideia está em cima da mesa desde a altura em que conheci o Faria de Oliveira, na altura ministro do governo social-democrata. Aliás, ele chegou a visitar a minha fábrica juntamente com Cavaco Silva. Falámos das várias possibilidades de dar a conhecer um país através de produções ligadas à 7.ª arte.

- A ‘Cidade do Cinema’ seria um bom cartão de visita para Portugal?

- Não tenho dúvidas disso. Portugal tem uma História riquíssima, um clima fenomenal, que o transforma numa espécie de Sul da Califórnia da Europa, e uma diversidade geográfica que dá para fazer cenários naturais para todas as circunstâncias. Se tivéssemos aqui uns bons estúdios, com a tecnologia e os profissionais de renome, poderíamos realizar muitos filmes que divulgassem esta cultura, a par com as grandes produções internacionais.

- Como é que Cavaco Silva e Faria de Oliveira reagiram à ideia?

- Muito bem. Apresentaram-me o então presidente da Câmara Municipal de Cascais, José Luís Judas, que também me visitou. Nessa altura disse-me que tinha um terreno em Cascais ideal para o projecto e comecei a falar com os meus sócios americanos. Gastei 150 mil dólares num projecto que incluía análises estatísticas sobre o emprego que iria trazer à região, os dados económicos sobre lucros e tudo o resto.

- O que é que falhou?

- O Governo caiu e houve um revés. O projecto foi parar à gaveta, como muitas outras coisas boas que às vezes as pessoas querem fazer e que são travadas por razões políticas. Depois, Judas disse que com ele não haveria problema, mas também foi substituído. Lembro-me de que antes de abandonar Cascais ainda passou o plano para Sintra, mas segundo os cálculos só em 2010 apareceriam as infra-estruturas para seguir em frente no local, que de resto era lindíssimo. Comecei a perder o entusiasmo em relação a isto tudo, mas ainda na mesma zona apareceu outro terreno, que está para aprovação há três anos... Ainda estamos em negociações. A ideia não está perdida.

- Como é que o Barreiro aparece nesta história?

- O José Fonseca e Costa tem dado um grande empurrão ao projecto, assim como a Ana Costa, da Cinemate, que eu já conhecia por vender material de cinema à sua família. Graças aos dois tive uma entrevista com o presidente da Câmara do Barreiro, na qual discutimos a implementação da ideia nos terrenos da Quimiparque. Vi ali a oportunidade de de-senvolver algo semelhante ao que se fez na Baixa Califórnia, com um tanque gigante para filmagens que envolvam água como em ‘Titanic’. Estava tudo bastante adiantado, havia contratos fechados e as negociações com o Governo seguiam a bom ritmo...

- Mas...

- Entretanto houve eleições Autárquicas, a Câmara caiu e veio um novo presidente. Com a história da passagem das pastas só passado muito tempo consegui marcar nova entrevista para dar continuidade ao dossier. Correu lindamente, o presidente da edilidade, Carlos Humberto Carvalho, mostrou abertura e interesse na proposta. Há tudo para avançar, mas ainda é preciso resolver o problema do terreno, que obriga a mais negociações. Está tudo nas mãos do Governo, que terá de decidir rapidamente onde vamos instalar a ‘Cidade do Cinema’. Já não posso esperar mais. É agora ou nunca.

- Caso finalmente avance, o que é que terá a cidade?

- Tudo o que se possa imaginar. Será uma espécie de Estúdios da Universal, com tecnologia de ponta, teatros, restaurantes, espaços de lazer. Poderá ser algo muito bom a nível de emprego para a zona do Barreiro, porque calculo que só à cabeça implique cinco mil postos de trabalho directos.

- Será fácil trazer as grandes produtoras para Portugal?

- Acredito que sim. Basta construirmos todas as infra-estruturas, porque não dá para filmar aqui e ir pós-produzir a França ou Inglaterra. Isso sai muito caro.

- Tem visto filmes portugueses?

- Infelizmente, não. Sou membro da Academia de Artes e Ciências de Hollywood e voto para os Óscares com regularidade. Há uns anos entrei nas votações para a categoria para ‘Melhor Filme Estrangeiro’ e tive mesmo muita pena de não ver lá um português representado.

- Isso obriga-o a passar muito tempo em visionamentos?

- Menos do que possa calcular. Mandam-me os filmes para casa pelo que não tenho de me deslocar às salas. E também depende da categoria em que voto, até porque doutra forma não fazia mais nada do que andar com DVD de trás para a frente. Este ano, por exemplo, escolhi um filme de São Salvador que achei muito bom, bem feito. Chamava-se ‘Vozes Inocentes’, foi nomeado mas não venceu.

- Como é a sua relação com alguns ‘gigantes’ do cinema?

- Normalmente é distante, porque são pessoas muito atarefadas. O Steven Spielberg, por exemplo, até há alguns anos ia várias vezes ao meu escritório, almoçávamos juntos, falávamos de tudo. Depois de ‘A Lista de Schindler’ anda tão ocupado que telefono-lhe e não me responde.

- Quem é que mais o ajudou nos Estados Unidos?

- A minha mulher. Conheci-a numa loja, quando andava às compras. A empregada perguntou-me de onde é que eu era e respondi que nascera em África. Ao meu lado, uma cliente perguntou exactamente onde, eu disse que em Angola, e que também vivera em Moçambique, ao que ela sublinhou: “Então você é português.” Fiquei pasmado, ia caindo de costas por alguém saber aquilo e acabei por convidá-la para jantar. Acabámos por casar.

- E em Portugal?

- A minha irmã, Maria Teresa, o meu maior elo de ligação com o projecto ‘Cidade do Cinema’. Ela tem tido muita tenacidade ao longo destes anos. Se não fosse o seu apoio já tinha desistido e continuado a minha vida sem aborrecimentos.

- Por que é que ainda insiste? Pela oportunidade de negócio?

- Não. Nunca me meti nisto pelo dinheiro, mas pelo facto de poder ajudar o País e, de certa forma, fazer um pouco de História. Gostava de deixar o meu nome ligado a um grande projecto português, se calhar porque infelizmente sofri muito quando fui para a Califórnia.

- Sentiu-se segregado?

- Jamais. Na verdade, durante muito tempo tive, isso sim, dificuldade em mostrar de onde vinha, quais as virtudes do meu país. Por exemplo, por causa do meu nome pensavam que era mexicano, e mesmo quando explicava onde ficava Portugal havia quem mostrasse a sua ignorância. Isto com universitários, pessoas que deviam ser mais cultas. Mas se dantes não vínhamos no mapa, hoje continuamos a ter dificuldade em impor a nossa cultura, a nossa identidade.

- As suas origens estão onde?

- Em Évora, mas nunca lá vivi. Passei a adolescência em Lisboa, era então muito recatado. Andava no Liceu Camões, fui aluno do Vergílio Ferreira, gostava de namorar e de festas, mas não era nada vadio. E adorava praticar o meu inglês.

- Por causa do rock’n’roll?

- Também. Gostava muito do Elvis e dos Beatles – agora prefiro o fado, que naquela altura detestava. E sou um benfiquista ferrenho. Mas na Califórnia vejo mais jogos ingleses, em especial do Manchester United e do Chelsea. Gosto muito do Cristiano Ronaldo e do José Mourinho que, segundo sei, muitos portugueses detestam. Dizem que ele fala demais...

- Recorda-se dos anos de ouro do Benfica?

- Ainda me lembro da equipa toda de cor. O Eusébio era o meu herói quando era miúdo, e depois havia o Simões, o José Augusto, o Coluna. Via os jogos todos, dizia que queria ser futebolista e a minha mãe sofria muito quando eu e o meu irmão desaparecíamos para ir jogar à bola. Nos Estados Unidos ainda estive na equipa da universidade, mas lá é um desporto que não tem relevância junto do grande público.

- Alguma vez se sentiu traído pela saudade?

- Não, acho que já não me iria adaptar em Portugal. Além do mais tenho os meus filhos nos Estados Unidos e a minha mulher é americana. Só tenho pena de viver tão longe, porque se estivesse em Nova Iorque era mais fácil vir cá regularmente. Mas tenciono fazer mais viagens, passar mais tempo em Portugal, até porque hoje tenho tempo para descansar.

              Fonte Correio da Manhã