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Artes&Leilões  entrevista Gil Teixeira Lopes

Em Estado de Graça

GITELO é um artista sem fronteiras ou barreiras, a qualquer nível... É pleno. Facto esse que permite-lhe uma constante busca de auto superação e de tentativa de encontrar o mais além, o mais perfeito, o impensável, que à partida podia estar limitado por questões plásticas ou semânticas. Apresenta-nos no Centro Cultural de Cascais "Sopros de Vida", como prolongamentos vitais de experiências, de trajectos, de desafios e de momentos de inspiração em estado de graça.

: Na presença da grande referência que é o mestre Gil Teixeira Lopes, primeira e inevitavelmente, desafiamos: gravador, escultor, desenhador, pintor, ...?
GITELO: Quase apetecia-me dizer nenhuma ou todas! No fundo o importante é expressar-me e expressar, aquilo que entendo que devo, e reagir do modo através do qual devo reagir. Os meios e os materiais são os mais diversificados e não gosto de estar restringido e, sobretudo, gosto de subverter os materiais e as técnicas.

A&L: De que forma articula, e sempre articulou, as diferentes expressões plásticas? Estas, complementam-se, dialogam ou completam-no a si enquanto artista?
GITELO: É isso tudo... Por vezes parte-se de uma determinada ideia para uma diferenciação de materiais que só depois se enquadram numa categoria artística. As acções são muito diversificadas como os motivos que se vão entender a partir das obras. Todas as expressões complementam-se e estão sempre em aberto, tal como a obra que encontra-se sempre aberta a tudo.

A&L: Encontramos na sua escultura um momento deveras interessante, nomeadamente com as máscaras...
GITELO: Gosto muito das máscaras... E gosto muito delas porque o primeiro momento da máscara é um fragmento... Uma parte... E o todo... Uma parte em que não se mostra tudo é um misterio e estimula a curiosidade da pessoa em querer ver mais, mais e mais. Esta parte é, por vezes, muito mais importante que uma obra completa. É um fragmento... Um momento... E o espectador atribui-lhe o restante conteúdo. O obervador lê e cria os momentos em falta sendo, também, um criador. Aqui o mistério é muito mais importante que a obra completa, que a perfeição...

A&L: Porém, encontrou na gravura uma manifestação sem limites, ao contrário da leitura limitativa que muitos lhe conferem, para se expressar, afirmar e internacionalizar-se...
GITELO: A gravura começou como qualquer outra técnica ou expressão que comecei a explorar desde muito jovem. É um processo que começa de uma forma muito imediata. A primeira que fiz foi uma gravura para uma ilusração de um livro. Perante as limitações que existiam e que ainda existem (nesse tempo eram totais!) arrisquei expandir a minha obra para fora das fronteiras, o que era muito difícil. Nesse sentido tentei encontrar os meios mais viáveis para essa intenção. Nessa altura havia grandes bienais internacionais de gravura, digamos "abertas". Convocava-se a bienal e informava-se todo o mundo que iria exisitir essa bienal e a sua periodização e cada artista podia candidatar-se individualmente, o que não acontece actualmente. Assim, desenvolvi a gravura dentro da faculdade para ter meios de a produzir, investiguei, experimentei imenso e tinha o meu atelier. Comecei então a enviar as minhas gravuras candidatas para as bienais. A primeira foi para Florença e aconteceu que tive um prémio logo aí. Corri um risco enorme em enviar as gravuras, fui bem aceite e ganhei o prémio, o que é surpreendente! A partir daí comecei a ser artista convidado porque se não o fosse também não ia. Os juris eram muito diversificados e o processo de selecção era outro o que permitia candidaturas espontâneas e constantes por parte dos artistas.

A&L: Consagrou, assim, uma notável referência a nível europeu e mesmo   global...
GITELO: Sim recebi diversos prémios e foi um grande incentivo. Porém o que acontece é que, ao contrário do que aconteceia noutros países lá fora, aqui um artista premiado não tem direito a uma exposição individual no país de origem. Este tipo de estrututuras não fucionavam em Portugal da mesma maneira. As grandes organizações que se começaram a distinguir não acompanhavam este processo. Em Florença depois da medalha de ouro fui eleito presidente da cooperativa de gravadores portugueses para organizar a 4ª ou 5ª representação na bienal. Porém, os processsos diplomáticos e a Secretaria de Estado da Cultura ao comandar o processo acabou por fracassar e Portugal deixou de ser convidado para essa representação.

A&L: Também no seu complexo e rico imaginário, que transparece nas suas obras, a diversidade temática e simbólica é notável... Como oscila entre, aquilo que defende como, "figuração mais ou menos objectivada"...
GITELO: Eu não faço destinções. Essas classificações são maneiras de organizar as coisas, e são títulos que se dão: abstracto ou realista. Mas elas não são taxativas e interpenetram-se e cruzam se e no meu mundo não me quero limitar por qualquer dessas barreiras. Tanto que posso estar a ver, quer em épocas, materiais ou formas de expressão, várias formas ao mesmo tempo e cultivá-las da maneira que eu quiser. Tal relaciona-se com as minhas técnicas sempre diferentes que se complementam e relacionam-se naturalmente. E foi sempre isso que defendei e quis transmitir aos meus alunos.

A&L: Como caractreriza o seu universo artístico?
GITELO: Essa pergunta!!! (risos) As temáticas são as mais diversas. Temos de estar sempre e o mais possível permiáveis e abertos a sermos tocados e influenciados por tudo aquilo que nos rodeia. Desde a mais simples flôr até a uma forma mais conjugada e complexa. A tudo isso temos de estar aptos a que nos toque, naquilo que chamo "estado de graça". No meu conhecimento tenho de aceitar e compreender tudo! Há artistas e coisas que me podem tocar em determinado momento. Tenho de ser capaz de, enquanto professor e artista, de ver tanto um Tápies como um Velázques e atender, estar disponível para o entender e absorver. As ressonâncias no meu trabalho são de épocas e momentos diferenciados. Tudo é baseado e resultado de um trabalho muito profundo de investigação, técnica e criação.

A&L: Outra componente indissociável da sua trajectória e obra é a componente técnica, o método e o processo criativo e produtivo...
GITELO: A pesquisa é fundamental no processo criativo. Sempre a ver, a questionar, a tentar meter as mãos... Sempre cheio de dúvidas. O método é experimentalismo. O trabalho é muito importante, muito mais que a inspiração. Inspiração só tem lugar e razão dentro da transpiração, dentro... E só ai se pode dar o tal estado de graça.

A&L: Agora, como professor catedrático jubilado de pintura da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, olhando em retrospectiva, de que forma vê como determinante, ou não, o seu importante trajecto no ensino na sua obra?
GITELO: Eu não seria o mesmo artista se não tivesse sido professor. Não diria que se prejudicam mas em todo o caso dentro da estrutura que está montada por vezes uma prejudicou a outra em termos de tempo e de disponibilidade. Por vezes quis ser só artista. Mas assim o artista fechado no atelier também não me agrada... Mas é sempre fundamental para um professor ser artista... Qualquer tipo de artista. No fundo cruzam-se! E para um artista professor o debate com os alunos é muito enriquecedor, e o aluno aprende imenso com o contacto directo com a visão do professor, do mestre. Por outro lado o académico tem de ser abalado para ter uma explosão um estímulo diferente para o processo de ensinar que também é criativo. E claro um artista não se faz só pela obra! Tem de estar enquadrado num contexto específico, há diversas circunstâncias que o levam a isso. A divulgação da obra, seu reconhecimento internacional e claro nacional. 

A&L: Conquistou um fascinante e natural percurso com muitas inspirações e motivações... Sabemos de um episódio que lhe é muito querido em que alguém comenta: "Não incomodem o artista, que está a trabalhar"...
GITELO: (risos) É a juventude! O jovem artista sente-se o centro do mundo o que é uma pura ilusão porque a seguir vem um trajecto duro e desafiante. Essa frase foi um comentário do director do MNAA Dr. João Couto que estava com um grupo de miúdos no museu enquanto eu estava a tentar copiar o painel dos frades, dos painéis de S. vicente. Foi uma verdadeira lição resolver todo aquele panejamento, o que em pintura é muitísssimo difícil sobretudo com técnicas aproximadas das originais, como a técnica de ovo. Foi um dos grandes ensinamentos e encerra uma certa mística que um artista tem de sentir sempre. É um embelezamento quando se é jovem, jovem esse que se quer superar com ambição e isso deve comandar o processo... Este desejo de perfeição deve estar sempre presente no ser humano e em qualquer profissão. É o que nos comanda para sermos sempre melhores e superar-mo-nos.

 

A&L: Estamos perante a presente mostra de inéditos "Sopros de Vida". Como a caracteriza e insere no seu percurso?
GITELO: (risos) Quando lhe dei o título isto inclui a minha vida, aquilo que tenho vivido entre a vida e a não vida (os meus problemas cardíacos desde há 10 anos) e no fundo estes sopros que apresento são também continuação da minha vida. São resultado destes meus saberes mas condicionados por certas circunstâncias e também há aqui uma expressão e uma leitura menos imediata que me é pedida pelo meu estado de exaltação que neste momento está mais presente. Interessa-me mais aspectos emotivos da expressão que resultam em composições menos objectivadas o que permite muito mais abertura de leituras. Abrem aos observadores mais perspectivas. E desejo sempre que eles gostem. Ao nivel de técnicas e cores abri também a amplitude e é uma conjugação diversa o que me permite e desesjo que seja uma grande abertura e libertação. O espaço por vezes é limitativo porque queria pintar em telas gigantes com 6 metros porque isso permite-me uma maior expressão. Gosto de me expressar em grande escala. Mas claro que estes trabalhos precisam respirar, cada obra precisa da sua ambientação e eu gosto de ambientes muito amplos, abertos. Gosto da dimensao latas. Tudo em grande e sempre foi assim. O que não quer dizer que não me emocione com coisas muito pequenas. Uma vez em Roma, no Museu do Vaticano, estava desesperado em busca de algo que me tocasse e fui ver uma escultura grega de uma cabeça de cavalo com uma linha de excepção e era de dimensões pequenas. Aí reside algo de mágico e no fundo um gosto pelo grande está presente... É, de novo, como os fragmentos que evocam algo maior mais completo e que em si contem uma essência de algo grande. Nas ditas pequenas obras vemos o indício da grandeza do artista, por isso, também, me dediquei a fazer coisas mais pequenas. É como o ritmo da vida, sempre diferenciado, tal como não falamos sempre da mesma maneira.

A&L: Pergunta "matreira" (risos), conhecendo outra particularidade do seu processo: as obras estão terminadas?
GITELO: Para este momento estão. Pendura-se as obras mas depois não sei o que vai ser delas. Elas estão prontas para aquela altura. Mas depois se estao completas não sei... E é bom que não saiba porque há sempre vontade de mais e de ir mais além e de procurar mais e mais... Aliás, neste momento ja estou a pensar noutras e nas próximas.

A&L: Finalmente qual é o papel do artista e da obra de arte?
GITELO: (risos) Eu sei lá responder a isso! Só poderei responder desta maneira. A criança nasce e ao nascer tenta fazer logo acções e dessas acções e essas expressões são necessidades humanas inatas. Depois há estádios e metas mais além, ou menos, que as pessosas vão desejando e atingindo. Os ditos artistas são aqueles que vão vivendo mais intensamente e fazendo mais experimentações e esforços na necessidade dessas expressões. Mas todos os seres humanos necessitam disso. As expressões artitas sao fundamentais para o Homem, são pão para a boca. E depois ha diversos meios de expressão. O artista é fundamental e as artes também. A informação artística faz a história e testemunha vivências e povos. A obra de arte é fundamental como produto dessa paixão, dessa vivência, dessa necessidade. O fundamental é que é primária e é uma necessidade humana, é uma entrega é uma aprendizagem que é mais ou menos desenvolvida consoante diversos processos e enquadramentos. E depois há a necessidade, também inata, no ser humano de sentir de forma extraordinária, de ficar preso quando observa ou é confrontado com uma peça artística. E é esta capacidade de fazer ficar preso, de cativar, de encantar alguém, que faz a obra de arte.

 

 
   
     
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