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MESTRE
MANUEL CABANAS |
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«Sou
um homem do povo e com o povo me identifico». Foi preso diversas
vezes pelas repressivas forças policiais do regime salazarista.
Foi perseguido, humilhado e injustiçado como cidadão e
como trabalhador ferroviário. Mas nunca vergou nem desistiu de
lutar pelas liberdades democráticas, pelos direitos cívicos
e contra as injustiças que marginalizam os mais desfavorecidos
da sociedade. Desenvolveu uma importante actividade como dinamizador
cultural, em especial no Barreiro, onde viveu muitos anos. Foi também
um artista, com uma notável e inovadora obra no campo do desenho
e da gravura em madeira.
Ele tinha acabado de subir
a escada e dirigiu-se à nossa mesa, três estudantes de
Liceu (Setúbal nesse tempo) e um deles interpela o Mestre: O
mestre já reparou que tem a braguilha desabotoada? Reacção
imediata: Se fosses sapateiro olhavas-me para os sapatos! Tinha
ele pouco mais de 60 anos, saúde bastante e um humor brejeiro
que não deixava ninguém sem resposta. Era então a década de 60, no tempo em que o “TICO -TICO” era a nossa casa. Ainda havia pouca televisão, ainda ninguem se tinha lembrado de embrulhar conversas para vender em massa, por isso só nos restava o convivio e troca espontânea de ideias frescas e ao vivo. O primeiro andar do estabelecimento era frequentado nas horas nobres por grande parte da “Inteligência Barreirense”. Oposição, rigorosamente vigiada, e defensores do regime eram permanentemente misturados com a restante fauna de estudantes, artistas e outros figurões. A cave era o sítio onde se via televisão. O piso térreo era mais dado a reformados, senhoras novas e outras nem por isso, homens de negócios e alguns dos mais castiços cromos que este Barreiro já teve. Tudo gente que preenche a minha memória, já que na altura fazia parte da atrás referida fauna estudantil. Luís
Ferreira da Luz /Novembro 2005
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