Belmiro
Ferreira,
Operário e Pintor Barreirense nasceu em 1912 ao mesmo tempo
que o Barreiro despertava para a industrialização, estava
a CUF a instalar-se no Barreiro e a dar também os primeiros
passos naquilo que havia de ser a transformação do Barreiro
num dos maiores centros industriais do país. Belmiro teve uma
vida como tantas outras da nossa terra, um resistente de ganga azul
vestido nesta “Terra Camarra”, símbolo da defesa
da elevação e dignidade de quem trabalha. Belmiro Ferreira,
foi o Operário que desenhou o Barreiro com o traço memorizado
de cenários de outros tempos de vida difícil, revelando
aqueles fragmentos de história até então apenas
descritos por palavras. Belmiro Ferreira deixou-nos no dia 24 de Abril
de 2004 depois de 92 anos de vida neste nosso Barreiro, estas linhas
vão no sentido de prestar a minha humilde homenagem ao Homem,
ao Artista e ao Operário, como forma de agradecimento público
a quem deixou no presente, um conjunto de imagens consistentes e um
contributo fundamental para o entendimento do nosso passado colectivo.
Pela memória que tinha dos anos vinte, tinha que ser o Belmiro
Ferreira a imortalizar as nossas origens, teve que ser o Belmiro,
nesse tempo já com 70 anos, a ilustrar e desenhar de memória
a cinco décadas de distância, o Barreiro das fábricas
de cortiça, a barreira de argila que segundo algumas opiniões
contribuiu para o nome da nossa terra e que era um enorme degrau que
existia paralelo à praia norte, que começava na Sra.
do Rosário e que se desenvolvia de poente para nascente ao
longo de todo o litoral, até ao velho e já engolido
pelo tempo Campo de Santa Bárbara. Nos quadros do Belmiro ficamos
a saber como e onde era o primeiro Cemitério do Barreiro no
local onde hoje é o Jardim dos Franceses, o traçado
primitivo do Largo das Obras, a rua Miguel Bombarda, a quinta do Herold,
a ponte do Seixal, o convento da Madre de Deus da Verderena, as salinas
do Lavradio, Alburrica e a azáfama dos estaleiros em plena
laboração, a praia antes da Avenida da Praia, o mercado
1º de Maio no centro do Barreiro quando o parque ainda era apenas
uma enorme quinta, bem como grande parte do Barreiro dos anos vinte
visto do ar como se o Belmiro estivesse dentro de um avião
a voar baixinho sobre o Barreiro antigo. Não tinha um avião
propriamente dito mas desenhava o Barreiro encavalitado no dorso da
memória, como se lhe tivesse sido encomendada a tarefa de deixar
aos vindouros a maqueta do Barreiro dos anos vinte.
Foram esses desenhos a que alguns chamam “naifs”, que
em boa hora passaram pela frente dos olhos do também saudoso
Mestre Augusto Cabrita que imediatamente se apercebeu do valor e qualidade
do homem e da obra que tinha produzido, incentivando o Belmiro a usar
a mancha e a cor em vez do traço. Não foi fácil
a transição desenho/pintura, Belmiro dizia que não
sabia pintar. Se não sabia aprendeu depressa, pois deixou-nos
umas boas dezenas de pinturas ilustrando grande parte do Barreiro
do princípio do século, um testemunho geográfico
e sociológico único, um património histórico
da Cidade do Barreiro que deveria estar permanentemente exposto ao
público em sala dedicada ao Homem e à Obra. Seria bom
que fosse possível ver não só uma Sala Belmiro
Ferreira, mas também espaços de exposição
permanente da Obra dos artistas Barreirenses de boa memória,
citando entre outros o Pintor Américo Marinho, o Fotógrafo
Augusto Cabrita ou o Xilogravador Manuel Cabanas. Quando é
que estas preciosidades se libertam das caixas e malas de viagem onde
se encontram amontoadas, amordaçadas e em progressiva degradação
ano após ano, para se tornarem num pólo de permanente
atracção de público, criador de sinergias e interagindo
com os artistas do presente. O antigo tribunal do Barreiro, seria
um dos sítios possíveis para a instalação
permanente da nossa memória colectiva sem deixar de continuar
a mostrar a arte do presente. É no entanto compreensível
à luz dos factos que os responsáveis pelo amordaçado
espólio estejam um pouco distraídos, só assim
se percebendo que um vulto como Belmiro Ferreira que ofereceu em vida
praticamente a totalidade da sua obra à Câmara Municipal
do Barreiro, tenha sido ignorado na hora da morte como em vida sem
a pública, oficial e devida homenagem. Dizem-me que é
por não ser “Barreiro Reconhecido”. Se não
é, devia ser e sendo assim já são duas homenagens
que lhe devem.
Belmiro Ferreira faleceu com 92 anos, no Lar de Nossa Senhora do Rosário
da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, onde residia, na
madrugada de 24 para 25 de Abril de 2004.
O Barreiro eternamente agradecido quer dizer-te, obrigado Belmiro
onde quer que estejas. Barreiro
24 de Junho de 2004
Luís
Ferreira da Luz
|