Embora não se tratando de uma exposição retrospectiva, com uma rigorosa selecção de pinturas de toda a obra de Zulmira Brandão, poderemos encontrar nesta exposição a preocupação, por parte da autora, de fazer uma referência às mais significativas fases do seu trabalho. Por isso mesmo, não será de estranhar encontrarmos nesta exposição algumas rupturas, processo natural de quem nos seus primeiros dez anos de criação artística, nunca se limitou a ter uma atitude cómoda e conveniente. Tanto na sua relação com o público, que desde logo aderiu às suas obras, como no seu percurso de criação e muito menos ainda numa partilha constante e aberta de experiências com outros artistas. Privilegiando sempre uma atitude de pesquisa e de reflexão, Zulmira participa em diversos projectos, mostras colectivas e workshops, não se limitando a criar autocitações de trabalhos anteriores, mas arriscando numa busca incessante.
Ao percorrer-se esta exposição ficamos com a sensação que a sua unidade gira à volta de um fazer gestual, sempre inacabado. È disso um exemplo a série “O Gatedo”, onde a liberdade do gesto nos transmite uma certa inocência e suavidade de pincelada. Por outro lado, na incompletude dos “Emoções”, a preto e branco, pressentimos uma enorme tensão, que ao mesmo tempo não deixa de nos sugerir um equilíbrio emocional e estético. Em outras pinturas encontramos uma iluminação impura, como no “Vicio”, onde pressentimos uma forte dramaticidade e por outro lado um enorme sentido poético. Zulmira dá-nos ainda a conhecer através da sua pintura a memória do sagrado e do erótico, como formas de exprimir um certo misticismo. “Onde estás” é uma pintura do sagrado e em “Begoña e Paco” o corpo torna-se intenso e erótico, de equilíbrio aparentemente frágil mas de enorme graciosidade formal no conjunto.
Na obra de Zulmira não se trata, portanto, de construir mundos, mas sobretudo de os habitar com os seus gestos e a sua pintura. A intenção com que Zulmira está na arte é fundamentalmente a de uma busca de autenticidade da própria obra e nunca exigir dela a ilustração de um pensamento ou intenção. Francisco Palma
(Almada, Out2009) |