1. Da arte superlativa só podemos dizer que — uma
vez que reaviva fragmentos de uma linguagem divina — é
avessa a interpretações. Multiplicar os discursos,
as sentenças, as inquirições em nada nos
pode ajudar. Nem os adjectivos, nem os substantivos, nem os conceitos.
O seu discurso é sempre excessivo, arredado das palavras
e dos ideários, das descrições e das mitologias.
Podemos inventariar temas e técnicas, tentar discernir
idiossincrasias ou heranças, no fim resta sempre o silêncio
como testemunho místico, a contemplação como
paradoxo afásico.
Poucos artistas nos fazem experimentar este sentimento plurimodal,
esta perturbação causada pela impotência para
a fixação das verdades, como Francis Bacon. Sabemos
que na violência do seu gesto e da sua intuição
pictórica se põem em questão e em risco a
aparência e as sensações como se de uma reconquista
da unidade simbólica da realidade e da mente se tratasse,
do senso e do sentido — mas parecem todas as análises
enfermar da senilidade desafortunada. Por isso admitimos, contrafeitos
e desiludidos, o desajuste de todas as categorias e paradigmas.
Falamos de uma solenidade corpórea, tangível, erótica,
religiosa, de um laço que une, ao arrepio da inteligibilidade
do discurso, exuberância, teologia e morte. E sabemos que
é um procedimento meramente enunciativo, sem certificado,
sem prova — a frivolidade do entendimento esmaga-nos e desencanta-nos.
Todo o juizo é fortuito.
2. A figuração e reconfiguração da
humanidade enquanto presença, enquanto índice lapidar
dos volumes e dos choques é o objecto do seu trabalho.
Mas uma figuração desajustada, convulsa, irónica,
quer cromática quer esquematicamente. Os corpos são
submetidos a uma distorção das proporções,
das texturas. As formas dão-se a ver para, através
do exercício pictórico, serem violentadas, escalpelizadas,
sacrificadas. Os volumes rearranjam-se para que permaneçam
como potência icónica. Os esgares e as feridas emergem
para retorcer a harmonia e a redescrever. Deste modo, à
rotina do olhar, às convenções e expectativas
dos usos, vem-se opor a instabilização do ponto
de vista, uma oposição pela perturbação
das regularidades — num certo sentido, uma revolução
dos esquemas piedodos e assépticos da forma.
Como em toda a arte que nos subleva, também aqui vivemos
sobretudo a experiência, um sacrilégio das verdades
vigentes, um sufrágio carnal do existente, das visões
e das matérias. Matérias que se permutam em espacialidades
contíguas (corpos que se fundem) ou exílios (figuras
contra fundos), pedaços de carne que se deslocam, ampliam,
rasuram, apagam. O sujeito da representação já
não é e ainda pertence a si mesmo, como se uma nova
identidade, uma máscara, um anacronismo o excluísse
do nome para o perder em verdade — nenhuma linguagem diz
ou referencia, apenas toca, sempre em falência. Como tal,
o sujeito sai e afasta-se de uma natureza entitária para
se tornar figura. Ele não se move, é demovido, desnudado,
incarnado em mancha, mancha que é ainda assim o resíduo
de uma verdade que lhe resta porque o desapropriou da tautologia
pictórica.
3. É a realidade que interessa a Bacon. Nada nos parece
mais evidente — mesmo que a sua intuição e
a sua linguagem sejam feitos de visionarismo e pugilato, o que
afasta os corpos do mundo para os nutrir de iconoclastia e terrorismo.
Há uma realidade sublimada e suja pela provocação
da morte e da deterioração. Num certo sentido, Bacon
é por isso o anti-Messias, aquele que aprisiona os entes
à sua evidência de trânsito e desvanecimento.
Se os corpos se dissolvem e gritam é para dar ao tema da
vida a nobreza bélica que a arte reclama. Os rituais místicos,
os contactos obtusos dos personagens dos seus quadros não
são mais que a caução que nos permite, com
alguma esperança de rigor, falar da visão de Bacon
como um tacto ocular, um esforço de por as matérias
em confronto com os quadros através das equações
ou dos pequenos relâmpagos que podemos adivinhar na sua
mente.
Da obra de Bacon irrompem em nós, sem apaziguamento racional,
as tensões, as encenações, as contradições
(os discursos em oposição da alma e do mundo) que,
nas diversas séries, nas sucessivas variações
e permanências, reelaborações e cristalizações
temáticas e técnicas nos perturbam como se a busca
da semelhança fosse a quimera da diferença e a perfeição
fosse a abençoada terra que em cada sonho se interrompe
para logo se reiniciar.
Porque comunga do misticismo da imanência, no trabalho de
Bacon o irreconhecido toma o lugar, não sem querela, da
familiaridade. E as convulsões da carne tornam-se facto
da pintura. Será que é por causa dessa transmutação,
fantasmagórica e opaca, da matéria em imagem, que
se torna visível e nos agoniza, que os nossos espíritos
se silenciam sem faculdades que permitam sobrevoar o abismo da
incredulidade?
4. Os cenários (arcos curvos e funâmbulos, mesas-arenas
e morgues, caixas transparentes, superfícies monocromáticas,
jaulas, divãs-enfermarias) dão-se como indício
de discrição e ao mesmo tempo como palco impressionista,
irregularidade metamórfica e métrica emocional,
angústia e claustrofobia, lar e estúdio. Temos superfícies
e minimalismo cromático, animalidade e força, o
fundo e a figura em dialéctica constante, serenada e apartada
nos seus termos: vectores e fricções num salão-ringue.
Só podemos observar esses embates, essas dinâmicas,
essas dilacerações em silêncio, sem simbologias
ou crenças, apenas ingenuidades que procuramos acertar.
Observamos a descarnação dos estatutos, das identidades,
das marcas nos retratos — não saberemos nunca qual
a habilidade de Bacon: talhante ou teólogo? Verificamos
as fracturas, os eixos, os vórtices sugeridos, as quebras
oníricas: pesadelo da carne, horror da ordem, refundação
da pintura, sumptuosidade, escombro? São fragmentos de
existências, ora obscenas ora informais, ora misterioas
ora imanentes. O orgânico e o cromático, a espessura
de um corpo e a verdade da linha desafiam-se e enamoram-se.
Esta pintura não é só uma questão
de técnica, é antes de mais uma questão de
linguagem, a tal linguagem divina, rochosa, feérica que
o mundo nos revela: convocação dos deuses da guerra
e das benevolências, das louváveis proporções
e dos monstros adormecidos, das vísceras e das asceses
para nos falar, em criptogramas musicados, sobre os ombros, as
bocas, as tripas, as poses, os perfis, os sexos.
5. Como acede a mente à pujança do real? Se escutarmos
os gritos, assinalarmos os esgares, tocarmos por breves instantes
intoleráveis o abismo do negrume emocional, meditarmos
o exercício do entalhe, a contagem das assimetrias, o espectro
de cores que cada um invoca para dar visibilidade ao mundo, podemos
decifrar algo de matéria e ideia, esbarrar nas formas e
nas sensações, golpear os instantes do mundo e faze-los
sangrar até se tornarem visão. Podemos munir-nos
com os ensinamentos de uma escola ou com a memória, íntima
e intocável, dos mestres, mas só o conseguiremos
se lograrmos a implosão e a incineração dos
ritos e dos mitos. Só assim podemos aceder à interioridade
(conceito tão vago e desiludido) das mentes, das nossas
mas sobretudo das do artista, e através desta tocar o mundo,
interrogá-lo, silenciarmo-nos.
Não podemos contudo nunca enunciar o seu talento, a sua
singularidade, a sua poesia que ecoa sem ser recitada. Tememos
que o desafio que o mundo lança ao olhar apenas a alguns
apareça como originário, radical, apocalíptico.
É uma ideia talvez romântica, talvez sem louvor,
talvez exígua para dizer a imaginação que
nos falta, a nós comuns. Mas, humildes seremos ao reconhece-lo,
não nos envergonhemos ao dizer que a experiência
das nascentes e das soturas que o mundo oferece àqueles
que o querem perscrutar são tesouros a poucos, muito poucos,
acessíveis.
6. Violência e tragédia: assim esfacelamos a realidade,
a incorporamos, a resguardamos para sermos tempo e presença
no mundo. Assim Bacon decompõe os corpos, revira as entranhas,
satura os cromatismos, reinventa os espaços: com bocas
de sangue ancestral. Nada se insinua (e escapa) mais gravemente
ao nosso entendimento que a carne, erotismo e barbárie,
continente de todas as convulsões e delírios.
Bacon recria monstruosidades e fantasias; disforma, mutila: a
completude é inerte, a perfeição estéril.
As amputações, rasuras no tecido do mundo e acrescento
de sentido (ou pelo menos, desordem), fabricam espectros e cadáveres,
pedaços de seres invisíveis e urgentes, organismos
esventrados pela ânsia visionária, obsessão
de tocar a espessura da anti-matéria. O terror da carne
e o vermelho interior assediam-nos. Amálgamas de vida,
de biologia, de segredos, de cópulas, de quadraturas, de
rotinas refazem-se em provas de contacto rugosas, em compressões
físicas e dilacerações. A matéria
dos corpos, tornada visível e, porém, ainda inefável,
não é mais que uma incisão na alma —
penosa, pesada, gloriosa. O conceito de representação
em refazimento: não aquilo que ainda podemos ver, mas aquilo
que incide, não só aquilo que perscrutamos mas um
novo vocabulário ainda sem léxico. Impotentes para
converter silêncios desesperados em signos, somos mais um
mero adereço cenográfico, arqueólogos-figurantes
que não compreenderemos nunca o tratamento do espaço
como uma fusão da nudez do corpo com a planura fechada
das superfícies, uma retracção e um soco
no movimento da visão.
7. Na adulteração das perspectivas e na torção
das coordenadas, como nas manchas onde se indefinem os contornos
e os contrastes é a própria clarividência,
porque coagida, que se aguça: figura e local, volumes e
fundos exercitam-nos, viajam-nos, avariam-nos. Não há
intelecto que se possa enfrentar com a pintura de Bacon e ainda
assim permanecer fiél a qualquer crença hermenêutica.
Pode embatê-lo, nunca vencê-lo. Mas abdiquemos também
do silêncio, pois se a luminária uivante e viçosa
desta estatuária da crueza nos submete, reivindica, por
isso mesmo, uma resistência, uma voz.
O que temos diante de nós? Assimetrias, alongamentos, superposições
dissolvidas, fusões, reenvios, visitações.
Todo um universo — único — que, por linhas
ínvias e difusas coloca em trânsito as comoções,
a serenidade, os habitáculos confortáveis onde se
resguardam as ideias para inquietar a mente assombrada do espectador
que só renuncia ao silêncio porque a vaidade o obriga
à revolta.
São arenas, palcos, quadrículas, espelhos onde a
tragédia se oferece em toda a crueldade porque ela é
a figura diagonal das emoções, um pouco de cisão
e um pouco de deleite. O corpo a corpo só reconhece a violência:
nas representações, nos fracticídos, nas
fornicações, no trabalho artístico. É
a celebração do seu atributo aristocrática
último: dispêndio. Em Bacon não há
só inspiração, degustação,
cerebralidade. Há também ritual e orgia tensa, acrobacias
da intimidade: com o real e com a verdade. Vectores de fustigação.
Dinâmica metafísica e visceral dos tecidos, rebentamentos
pictóricos, feridas e formas puras que agonizaram.