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De um século a outro
Num fim de tarde de há 36 anos, à porta da Associação Académica do Barreiro, na então Rua D. Manuel I, um rapaz alto e louro e um lingrinhas de óculos de massa carregavam, para o banco de trás de um grande Opel Record azul, um certo número de telas – preciosamente, com mil cuidados, como quem manuseia peças Ming. Arte, ousadia e sonhos eram, na verdade, tudo o que tínhamos para dar ao mundo nesses dias. O Opel pertencia ao pai do rapaz louro. O rapaz louro era Luís Miguel Ferreira da Luz. E o destino da expedição era a Junta de Turismo da Costa do Sol, onde então se preparava mais uma edição do prestigiado Salão de Outono. Só por ser o lingrinhas desta memória posso hoje dizer que acompanho, desde o seu primeiríssimo passo público, o caminho artístico de Ferreira da Luz, iniciado precisamente nessa exposição colectiva do Estoril, no ano de 1971. Metemos 12 escudos e 50 centavos de gasolina, na bomba da Shell, à saída do Barreiro; e quando regressámos já os candeeiros públicos deitavam a sua luz parda sobre as ruas da nossa terra. Porque me lembrarei eu disto, agora que Ferreira da Luz me convida para escrever duas linhas a propósito da presente exposição?
A arte (como tudo o mais na vida) não existe fora da memória: ela prolonga e desvela um olhar que é informado por história, ambiência, anseio. Tomemos, aliás, o caso de Ferreira da Luz. Há na sua pintura o reflexo largo e generoso de uma condição universal, exposta na sua globalidade cibernética como código de acesso àquilo a que poderíamos chamar «o todo»; e cada quadro é, aqui, uma password para um «portal» cósmico em que podemos navegar sem necessidade de intérprete. Mas há também, na já vasta obra de Ferreira da Luz, marcas do seu tempo e do seu espaço. O traço minucioso dos flagrantes pequenos, breves, íntimos. O vento e o sono, o grotesco e o afecto, a leveza de um céu de verão, um sorriso captado como numa fotografia, no breve instante de um pestanejar. Por isso digo: a arte, tendo uma dimensão cósmica, é também carne e osso, dias e minutos, espaços, vozes e silêncio. E é essa totalidade que comove em Ferreira da Luz.
A «comoção» face à obra de arte é muito semelhante ao sorriso interior de quem lê um texto e o compreende e adopta como seu. Pois há na identificação do pintor com o seu «espectador» uma cumplicidade de olhar, um magnetismo de íman, algo como o perfeito entendimento de um destino que se adivinha e conhece por dentro. Somos, assim, atraídos para um quadro como para um vórtice. Nada podemos fazer para escapar-lhe. Ora, deste ponto de vista, a pintura de Ferreira da Luz é um poderoso vórtice - e para isso contribui, sem qualquer dúvida, o seu domínio virtuoso do movimento, porventura uma das características mais marcantes do seu trabalho. É na mobilidade plástica que se afirma a sua comunicação, é nessa mobilidade pictórica que ele faz desfilar os seus personagens e os seus génios, o seu naipe de temas e visões. Há quadros seus em que a noção de profundidade e abismo é tão forte que apetece mergulhar neles, como quem sobrevoa o dédalo de um casario numeroso, de mil faces. O mesmo sentido de profundidade e movimento está presente em muitos dos seus retratos, dos seus quadros de situação, a que não faltam rigor, perspicácia, ironia, ternura, tons de baile de rua, recantos penumbrosos de casa. Isto é o que a pintura nos dá: o mundo ao alcance do nosso olhar. E os mundos em que esse olhar se dilui, como a memória de um cosmos que tem sítio e tempo mas é de todos os sítios e de todos os tempos. A arte. |
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