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A arte (como tudo o mais na vida) não existe fora da memória: ela prolonga e desvela um olhar que é informado por história, ambiência, anseio. Tomemos, aliás, o caso de Ferreira da Luz. Há na sua pintura o reflexo largo e generoso de uma condição universal, exposta na sua globalidade cibernética como código de acesso àquilo a que poderíamos chamar «o todo»; e cada quadro é, aqui, uma password para um «portal» cósmico em que podemos navegar sem necessidade de intérprete. Mas há também, na já vasta obra de Ferreira da Luz, marcas do seu tempo e do seu espaço. O traço minucioso dos flagrantes pequenos, breves, íntimos. O vento e o sono, o grotesco e o afecto, a leveza de um céu de verão, um sorriso captado como numa fotografia, no breve instante de um pestanejar. Por isso digo: a arte, tendo uma dimensão cósmica, é também carne e osso, dias e minutos, espaços, vozes e silêncio. E é essa totalidade que comove em Ferreira da Luz. |