A MEMÓRIA VIVA DE
JOSÉ CARO PROENÇA
Fotografias: acervo JCP/Ferreira da Luz
Coordenação: artbarreiro.com
 

3 – JOGOS OLÍMPICOS DE HELSÍNQUIA


Pelo pressuposto, JCP obtém a creditação de “Repórter Olímpico” pelo comité organizador, finlandês (COF).
Como tal, embarca no paquete “Serpa Pinto” – como que instituído em “Aldeia Olímpica”, flutuante, portuguesa . A bordo alojam-se, durante cerca de um mês, uns 70 atletas e obra de 500 acompanhantes: dirigentes, jornalistas, turistas, etc.
O navio saiu de Lisboa rumo a Helsínquia, através do “Mar do Norte” – então, ainda pejado de um sem-número de barcos afundados durante a Segunda Guerra Mundial, recente (1939-1945), e de minas anti-navio à deriva. Espectáculo dantesco que obrigou à admissão de um piloto local, experiente, a fim de conduzir o “Serpa Pinto” a bom termo. Ou seja, entrada do canal de Kiel , interface do Atlântico Norte com o Báltico, onde se situa o porto de Helsínquia – termo da viagem, de ida.
No trajecto marítimo, JCP, identificou-se com os principais atletas e dirigentes ( da égide do General Correia Leal, antigo campeão nacional de Atletismo), entrevistando-os amiúde, e convivendo com os cinco jornalistas portugueses reconhecidos pelo Comité Olímpico Português (COP): Ricardo Ornelas – companheiro predilecto-, Lança Moreira, Artur Agostinho, Eduardo Soares e Afonso Lacerda (salvo erro). E, também, refez antigo companheirismo com Moniz Pereira – coevo de JCP no atletismo do Sporting Clube de Portugal -, e estabeleceu novos laços de amizade, de elevada dignidade profissional e cultural. Caso de Adelino Lyon de Castro – talvez o melhor fotógrafo nacional na época, em quem o barreirense Augusto Cabrita se teria inspirado no inicio da sua notável carreira profissional-artistica.
Quanto à preparação dos atletas, à ida, o paquete “Serpa Pinto” serviu de ginásio e “campo” de treinos, em diferentes modalidades. Das de aparelhos gímnicos à esgrima – excepto náuticas e hípicas, é óbvio. Preparação que, JCP, seguiu e registou – logo a relatando para Angola.
Já em Helsínquia, nos dias que antecederam os Jogos, JCP, com o estatuto de “Repórter Olímpico” credenciado pelo Comité Organizador, assistiu aos treinos de alguns dos atletas mais famosos do momento. Caso do Checo Emil Zatopek, apodado de “locomotiva humana” . Seu triunfo nas três provas de fundo – 5000 m, 10.000 m e Maratona na mesma Olimpíada, jamais foi alcançado até hoje.
Outro feito invulgar que JCP registou correspondeu à prova de “triplo salto” em que o atleta brasileiro, Adhemar Ferreira da Silva, melhora o seu já recorde mundial de 16,01 metros por quatro vezes consecutivas, fixando-o em 16,22 metros . Marca Olímpica e do Mundo que o próprio Adhemar Ferreira da Silva ultrapassou em 1956, nos Jogos de Melbourne, com o máximo mundial de 16,35 metros.
Outro momento histórico foi a final de basquetebol entre os Estados Unidos da América e a União Soviética. Histórico, como primeiro confronto olímpico na modalidade entre as duas superpotências, e pela alta qualidade e emotividade do jogo, do principio ao fim.
A selecção Americana venceu por 86-58. Lembrança desse jogo é o bilhete respectivo, ao preço de $1 US – cerca de 40$00, ao câmbio português da época, ou 0,20 euros actuais.
Mas, a imagem mais gratificante que JCP guarda dos Jogos de Helsínquia é a de Paavo Nurmi, o “Finlandês Voador” – como admiravelmente era apodado à escala mundial. Daí o aplauso generalizado que recebeu ao surgir do túnel da Maratona, no Estádio de Helsínquia. Estátua viva, na sua famosa passada de “fundista”, ostentando o facho olímpico . Depois, a apoteose entra em crescendo à medida que Nurmi se aproxima da “pira”. Ao ateá-la recebe uma monumental ovação .
Preito devido ao atleta olímpico com mais medalhas de ouro (até hoje, 2004 – nove medalhas de ouro, individuais). Aliás, com os Jogos Olímpicos de Paris (1924), Paavo Nurmi, deteve todos os recordes mundiais de Atletismo entre os 1500 e os 10.000 metros – feito jamais atingido por outro atleta. O perfil e a passada atlética, ímpar, de Paavo Nurmi, perpetuam-se na estátua em bronze à entrada do Estádio de Helsínquia (foto 13), onde JCP, ao lado do jornalista desportivo Ricardo Ornelas, o viu correr pela última vez nuns Jogos Olímpicos.
Sobre a participação portuguesa, JCP, destaca a medalha de bronze alcançada pela dupla de velejadores, Joaquim Fiúza e Francisco Andrade, na classe “star” – atrás da Italiana e dos E.U.A. Nas restantes modalidades, Portugal não passou da mediania – mais ou menos digna, num ou noutro concurso ou disciplina.
Porém, valeu a pena! Pois, “vale sempre a pena quando a alma não é pequena” (diz o poeta). Assim viria a acontecer com o “OURO” conquistado por Carlos Lopes, nos Jogos de Los Angeles (1984), Rosa Mota, nos Jogos de Seul (1988), e Fernanda Ribeiro, nos Jogos de Atlanta (1996) – sobre a restante “PRATA” e “BRONZE”.

Jaime Palma

Barreiro, 5 de Outubro de 2004