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As
lágrimas de Carla Geraldo – Adela – no final do
espectáculo, “A Casa de Bernarda Alba”, que a Companhia
de Teatro do Barreiro – Arte Viva, estreou, no dia 10 de Outubro,
foram, um retrato vivo das emoções que são sentidas,
por todos aqueles que integram um Grupo de Teatro, no dia que é
efectuada a estreia de uma nova peça.
O Arte Viva, como sempre, mais uma vez, levou à cena um espectáculo
que agradou pela sua beleza plástica, pela qualidade dos textos
e pela presença dos seus actores.
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“A
Casa de Bernarda da Alba”, de Frederico Garcia Lorca, com encenação
de Onivaldo Dutra e Marco Mascarenhas, estreou no Teatro Municipal
do Barreiro e, a partir de agora, poderá assistir aos espectáculos
às Sextas Feiras e Sábados, pelas 21, 30 horas.
As luzes apagaram-se. O espectáculo vai começar. Escutam-se
os sinos, que marcam a ruralidade do espaço onde a peça
irá decorrer. Os sinos integram-nos no ambiente rural e sua
religiosidade.
Há uma nota de “cor” que nos ficou da encenação.
Uma das cenas iniciais é marcada pelo negro vestido por todas
as personagens, ali, apenas uma personagem do povo é “marcada”
pela “pincelada” branca de um xaile, onde o nosso olhar
se perde. Parece que o encenador nos quer dizer, simbolicamente, que
no meio de todo o negro, da tristeza e amargura, há sempre
um sinal branco, símbolo de paz, que nos abre uma porta à
liberdade.
Uma cena que anuncia a morte do homem que está ausente, pela
morte, mas, afinal, sempre presente marcando as emoções
das personagens ao longo de toda a peça.
E, contraditoriamente, na cena final, as personagens estão
todas vestidas de branco, sendo, apenas, Bernarda quem está
“marcada” com aquele registo negro do seu xaile, como
parecendo que o encenador quer apontar dedo àquela que foi
a personagem que, pela sua inflexibilidade e autoritarismo é
a causa de toda a tragédia da peça.
Uma cena que salienta outra morte, agora a morte de uma mulher - a
mulher que ao longo de toda a peça viveu submissa, resistindo
e lutando na busca do amor e da sua liberdade.
A mulher nesta peça é apedrejada por amar. A mulher
vive, aqui, acorrentada na sua loucura e paixão – bem
caracterizada pela mãe - Maria Josefa, que Maria Cavaco, representa
com brilhantismo.
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| A força
da cor Os encenadores levam-nos,
mais que uma vez, a sentir a força das personagens pela cor,
pela luz, criando verdadeiras “molduras” poéticas.
Quadros de vida.
Foi com emoção que sentimos a entrada em cena de Adela,
com seu vestido verde, um sinal de esperança e de vida –
de paixão e amor. Uma cena que faz recordar aquela personagem
vermelha que emerge no preto e branco, no filme – A Lista
de Shingler.
Os encenadores, ao longo de toda a peça, levam-nos a viver
emoções pelo jogo de cor e de luz, procurando dar
uma grande força às expressões dos rostos e
nos olhares que transmitem os sentimentos das personagens.
Todo o espectáculo é marcado por uma grande beleza
estética - fotográfica.
Há quadros, instantes, que apetecia possuirmos uma máquina
fotográfica e registar, em zoom, grandes planos, onde fossemos
capazes de guardar as imagens que cintilam, em magia, com vida e
com o ritmo do movimento silencioso das personagens.
Uma força estética bem presente – na contraluz
e na focagem dos rostos que emerge da força dos projectores.
Embora o sistema de luz existente no Teatro Municipal não
permita obter melhores resultados, perturbando, por vezes, o ritmo.
Os sinos de abertura. Os sons do flamengo. São momentos sonoros
colocados com perfeição no desenvolvimento da peça.
Somos levados a “navegar” nos sons e a “vivermos”
o ambiente social onde a peça decorre.
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| Cenário
em movimento De registar,
aquele “movimento das cadeiras”, em diferentes momentos,
que são concretizados como para anunciar a marcação
do espaço e abrindo lugar à entrada das personagens.
O nosso olhar segue as alterações do cenário
e sentimos que este “movimenta-se”, transforma-se no
próprio movimento das cadeiras.
O “movimento das cadeiras”, a sua colocação
em diferentes locais do espaço cénico, parece-nos
que é utilizado, pelos encenadores, de forma intencional,
como quem nos empurra para um jogo de peças de xadrez que
se movimentam para nos levar a interiorizar e sentir a clausura
das personagens..
Um cenário que ao longo de toda a peça não
é estático, move-se, nos “movimentos das cadeiras”,
nos movimentos das personagens. O nosso olhar é conduzido
para o “centro óptico” da cena – pela cor,
pela luz, pelo rosto da personagem.
Um candeeiro no meio da mesa de jantar obriga-nos a sentir que a
cena tem um ponto de focagem, uma luz, em torno da qual o diálogo
se constrói...
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| As mulheres
ao palco Maria Matos, Célia
Figueira e Maria Cavaco, mais uma vez, marcaram presença,
dominando as suas personagens. De registar que no 2º Acto pareceram
mais confiantes e superaram algum nervosismo inicial.
Célia Figueira, contrariamente, ao que nos habituou, desta
vez, tropeçou no texto, por uma ou duas vezes, no entanto,
a força que colocou no final da peça, sem dúvida,
dá para esquecer e registar que as “brancas”
foram apenas um acidente de percurso, natural num dia de estreia.
Parabéns.
Um registo especial para Joana Pimpista – Martírio
- que demonstrou grande profissionalismo, pleno domínio de
colocação de voz e de dicção. Uma actriz
em potência. Cada vez melhor.
Igualmente a Carla Geraldo – Adela – foi uma actriz
que, embora marcada por algum nervosismo no 1º acto, no 2º
acto, registamos que já se encontrava mais senhora do seu
papel e saiu de si ao encontro da personagem. Só quem ama
o teatro chora lágrimas de alegria.
Rita Conduto – Amélia; Genoveva Pimpista – Angústia
e Ana Lúcia – Madalena; foram perfeitas nos seus papeis.
Ana Macedo – criada, nos momentos próprios, lá
estava em cena, marcando com firmeza a sua presença.
A peça contou ainda com a participação de –
Isabel Ribeiro; Irene Rijo; Helena Cruz; Sara Santinho; Ana Regra
e Vanda Robalo.
Uma peça feita por mulheres, todas com muita garra e que,
aqui e agora, sublinhamos, vale a pena registar um dia na sua agenda
um dia para ir até ao Teatro Municipal do Barreiro, mais
uma vez, ver o “Arte Viva” num espectáculo de
qualidade.
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