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A CASA DE BERNARDA ALBA É ARTE VIVA

A Casa de Bernarda Alba é a ultima peça de Frederico Garcia Lorca , escrita em Junho de 1936. Lorca viria a ser assassinado a 19 de Agosto daquele mesmo ano.
Uma peça tão realista quanto poética, A Casa de Bernarda Alba fala-nos de abusos de poder, de opressão, de sofrimento, de luta pela liberdade, de amor e de traição. Cada personagem procura, a sua maneira, a felicidade que lhe é negada por um mundo de tabus e por uma sociedade impregnada de regras.
Todas estas características surgem ligadas à figura de Bernarda, mãe autoritária, que exerce, sobre as suas filhas e sobre toda a aldeia onde vivem, o poder omnipotente simbolizado através da riqueza e do estatuto social. Num cenário de burguesia rural, o interesse sobrepõe-se ao amor. A estratificação social, a tirania de opinião, o poder que não deixa margem para o reconhecimento das fragilidades de cada uma - porque a mancha nunca se limpa - conduzem o enredo da obra para um final trágico.
Adela , filha mais nova de Bernarda Alba, é o símbolo da luta pela liberdade e pelo amor e é , sem dúvida , a personagem mais radicalmente rebelde do teatro Iorquiano. Aquela que luta, sem se resignar, que desafia a autoridade da mãe, que se rebela contra o destino das mulheres marcadas pelo código de honra, num meio onde a opinião é sinonimo de categoria moral e do qual depende a estima da comunidade . Assim, Adela faz uso de todas as armas para lutar contra o seu destino de mulher submetida a um mundo de extrema opressão que opera sobre um tecido de costumes e normas em que ser mulher é já , por si só, uma maldição. Ela é a única das irmãs que esta disposta, em nome do amor, a expor-se à degradação social : ser a amante de Pepe Romano quando este casar com Angustias.
Para alem de um espaço interior, quase sinonimo de prisão, adivinha-se uma aldeia em guerra cujas causas advêm de preconceitos morais e valores religiosos " A culpa de tudo isto são as línguas do mundo que não nos deixam viver em sossego. " - diz a personagem Amélia.
A calmaria do branco da cal contrasta com o negro destas pobres almas a viver na sombra do poder de uma Bernarda que de " alba " apenas lhe resta o apelido e que reflecte, já, a alma do poder franquista que começa a impor-se naquele mesmo ano e que cobre de negro a alma do povo e dos seus poetas.
É arte viva como sempre foi viva a nossa vontade de levar a cena, nestes mais de vinte anos de existência, A Casa de Bernarda Alba, projecto agora concretizado.
É , sem sombra de divida, a concretização de um sonho, de muitos sonhos, de muitas lutas travadas e vencidas, de muitas limitações ultrapassadas. A arte continua viva, como sempre esteve ao longo dos anos, mudamos de século, de milénio, mas o sonho continua, cada vez mais forte e necessário para uma arte livre e libertadora. Este e o espírito Iorquiano:
" Estou um pouco contra todos, mas a beleza viva que brota das minhas mãos, consola--me de todos os desgostos. "
0 Arte Viva é isto, uma historia de amor e de vida, de amor pelo único bem que nos une " o amor pelo teatro " e de vida " porque a vida faz-se aqui sobre as tábuas de um palco " onde é o lugar dos amantes do teatro.,
Lorca definiu assim o teatro: " 0 teatro é a poesia que sai do livro e se faz humana. E ao fazer-se, fala e grita, chora e desespera. 0 Teatro necessita que os personagens que apareçam em cena, levem um traje de poesia e ao mesmo tempo que se lhes vejam os ossos, o sangue. Tem de ser tão humanos, tão horrorosamente trágicos e ligados a vida e ao dia com uma forca tal, que mostrem as suas tradições, que se apreciem os seus cheiros e que salgue os lábios toda a valentia das suas palavras cheias de amor ou de asco. 0 Que não pode continuar é a sobrevivência dos personagens dramáticos que hoje sobem aos cenários levados pelas mãos dos seus autores. São personagens ocos, vazios totalmente, aos que apenas é possível ver através do casaco um relógio parado, um osso falso ou uma caca de gato dessas que há nos devaneios." (Lorca , Abril de 1936).

 
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